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Ano 9 - 13 a 19 de Maio 2006
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Entrevista - Diogo Mainardi

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Data de Publicação: 22 de julho de 2006
INIMIGO PÚBLICO NÚMERO UM

Quando vivia em Veneza, Diogo Mainardi escrevia semanalmente uma coluna na revista Veja, transmitindo à distância sua visão crítica da cultura brasileira, inclusive do comportamento que predomina no país. Não poupou nomes como Carlos Heitor Cony, Gilberto Gil, Zuenir Ventura e Caetano Veloso, alvejados por sua metralhadora giratória e que passaram a ser inimigos mortais seus.

Voltou ao Brasil quando o PT, finalmente, conquistou o poder e o presidente Lula entrou na história como o primeiro líder de esquerda a governar o país. Além de eleito presidente,também passou a ser o alvo preferido de Mainardi, que, a partir daí, não o poupou de críticas ácidas. A cada semana o Palácio do Planalto se indignava com os petardos disparados pelo jornalista, que o considera inimigo público número um do governo petista.

Diogo Mainardi estudou na London School of Economics, em Londres, e foi lá que conheceu Ivan Lessa, que o introduziu a literatura e ao gosto pelo jornalismo, apresentando-o a Paulo Francis, que passou a ser uma espécie de guru.

Além da revista Veja, mantendo uma coluna que é leitura obrigatória, faz comentários no Manhattan Connection, que vem a ser um dos mais respeitados programas da TV a cabo brasileira. Aos 44 anos, sem dúvida nenhuma, é considerado, hoje, o jornalista mais polêmico do país. Odiado e admirado, está mais para um franco atirador, sempre mirando um alvo - de preferência os políticos. Quando estava na Itália, era Sílvio Berlusconi, o então primeiro-ministro; aqui,é Lula...

Em seu apartamento, na Vieira Souto, no Rio de Janeiro (com uma janela que abre uma vista panorâmica para o mar, de onde fica, com binóculos, observando os golfinhos), ele recebeu, para a entrevista que se segue, o jornalista Marcone Formiga. Confirma que está se preparando para um novo auto-exílio, conta que responde atualmente a nada menos que 400 processos na Justiça e demonstra que não perde a sua capacidade de indignação diante do conformismo dos brasileiros.

Mesmo no auto-exílio, a uma distância de 12 mil quilômetros, pretende continuar mirando, lá da Itália, em seu alvo principal, o presidente Lula, enquanto estiver ocupando a poltrona principal do Palácio do Planalto.

Garante que munição é o que não vai faltar...

Marcone Formiga - Você compraria um carro usado pelo presidente Lula?
Diogo Mainardi - Eu não compraria carro usado por nenhum político. Eu não uso carro, em primeiro lugar. Sou contrário à vida que exija grande locomoção. Gosto de ficar em um raio bastante limitado de espaço. Político não é comigo. Não quero ter negócios com eles. Nem jantaria com um político, não é só comprar carro...

Marcone Formiga - Por quê?
Diogo Mainardi - A política brasileira está mais para aquele deputado do Acre, o deputado moto-serra, o Hildebrando.

Marcone Formiga - É por causa dessa banalização da corrupção, dessa roubalheira? Não acontece nada...
Diogo Mainardi - A impunidade foi a coisa mais incômoda que aconteceu nesse último ano. Raramente, tivemos gente pega em flagrante, como tivemos agora. Não é que a corrupção não existisse antes, mas quando se pega gente em flagrante, na fila do banco, recebendo dinheiro em sacos plástico, maletas e cuecas, aí fica muito incômodo, muito desagradável, gera uma depressão geral, no país inteiro, quando se percebe que esse tipo de coisa não recebe uma punição.

Marcone Formiga - Toda essa impunidade prova que, aqui, no Brasil, o crime compensa?
Diogo Mainardi - Compensa, e compensava antes, provavelmente ainda mais, porque essas coisas não eram descobertas. Mas eu acho que o escandaloso para quem está do lado de fora é quando a coisa vem à tona, fica pública - acompanhamos por seis meses denúncias diárias -, e não tem uma conseqüência. Isso nos deixa engessados, imobilizados...

Marcone Formiga - Mas a população está indiferente a tudo. Isso é da índole do brasileiro?
Diogo Mainardi - Na verdade, em um país maduro, não seriam necessárias grandes manifestações de rua, passeatas, quebra-quebra. Um país maduro tem instituições que sabem lidar com esse tipo de problema. O Watergate não levou multidões à rua e derrubou um presidente. Se existem instituições que façam o seu trabalho, o povo, que paga seus impostos, trabalha, tem outras preocupações, não tem grande capacidade de mobilização. Não é obrigado sair à rua e quebrar as janelas dos carros e de bancos. Eu não atribuo aos brasileiros a responsabilidade pela impunidade. Eu acho que é culpa do Congresso, do Judiciário, dos sistemas de controle, da Imprensa. A culpa é de quem tinha a função de vigiar e, sobretudo, de quem tinha a função de punir. Não acho que a população seja a principal responsável, não.

Marcone Formiga - Nós assistimos o impeachment do Collor e coisas muito mais graves ocorreram com o Lula, mas, com ele, não acontece nada. O que é isso?
Diogo Mainardi - Eles sempre contaram com um aparato social muito forte. O PT tem uma grande força de mobilização e isso facilitou muito o trabalho deles. Os sindicatos são formados por pelegos petistas, as centrais de estudantes têm peleguinhos petistas. Essa peleguização do Brasil e das organizações centrais que reúnem um grande número de pessoas e têm um poder de mobilização acabou enfraquecendo essa reação popular, de rua. Repito, a coisa fundamental foi a falta de mecanismos de vigilância - percebemos tarde demais as coisas que estavam ocorrendo - e, em segundo lugar, de punição.

Marcone Formiga - Há, também, uma parte da imprensa militante do PT. Existe esse braço da imprensa amestrada com o PT?
Diogo Mainardi - Sem dúvida! Fiz essa denúncia de forma bastante veemente, dando o nome das pessoas e afirmando que eles fizeram um trabalho muitas vezes subterrâneo, porque não era declarado, de proteção ao regime. Fizeram isso ainda antes da eleição e continuam fazendo. Esse trabalho de proteção, que consiste em dar a informação conveniente ao governo, a informação chapa branca, existiu e continua existindo. É grave! O Reinaldo Azevedo, recentemente, em seu blog, insistiu em mostrar como a imprensa tinha comprado a tese de que bater na tecla da corrupção favorecia o Lula. É uma estupidez, é óbvio que não é verdade, mas é uma informação conveniente ao Lula e, consequentemente, aos que o apóiam.

Marcone Formiga - O Augusto Nunes, outro dia, falou que, quando era diretor de redação, tinha dificuldade de pautar matérias que contrariassem o PT porque os repórteres eram engajados ao partido...
Diogo Mainardi - Eles conseguiram passar a idéia de que os órgãos de informação são manipulados pelos patrões, que tinham interesse de direita. Não é verdade! Não conheço nenhum patrão que se meta nisso. Até deveriam se meter um pouquinho, mas morrem de medo. Nenhum mete um dedo em uma redação de jornal ou revista, justamente pelo medo da acusação de estar agindo por interesse próprio. Então, boa parte das redações está na mão de gente que tem interesses partidários, sectários, doutrinários. O jornalista pode ser de direita ou esquerda, isso importa minimamente, desde que vá atrás da notícia e não a manipule para favorecer um setor. Tem que ir atrás da notícia inteira. Mesmo prejudicando o presidente que ele apóia, o que tem que prevalecer é a notícia. Não é que o que está acontecendo.

Marcone Formiga - Na época do regime militar, o patrulhamento era de direita. Agora, é de esquerda. O senhor já sentiu esse patrulhamento?
Diogo Mainardi - Existem 300 idiotas que me seguem para todos os lugares. Eu escrevo um artigo e tenho 300 idiotas que comentam, funcionários públicos, em sua maior parte, me acusando. Eles têm esse esforço muito organizado de me colocar à margem. Mas, essa é uma posição em que eu me sinto muito confortável. Eu sou mesmo um marginal dentro imprensa, tenho uma posição que está à parte. Eu tenho um nicho, com um determinado número de leitores, que se interessa pelas coisas que eu faço. Tenho bastante autonomia e liberdade. Felizmente, na minha retaguarda, tenho pessoas que se interessam pelas coisas que eu possa vir a dizer.

Marcone Formiga -- No ano passado, um jornalista americano quase foi expulso do país porque escreveu que o presidente bebe. Ainda foi cogitada a criação de um Conselho Nacional de Jornalismo. Não existe uma porção stalinista do PT nisso tudo?
Diogo Mainardi - Existe um problema preliminar aí, da própria formação brasileira. Temos o líder como um cacique intocável e imputável. Eu acho que a tradição anglosaxônica, de invadir, testar o limite da privacidade do governante, é válida. Investigar se o presidente bebe ou não bebe, se isso prejudica ou não a função dele, é uma função da imprensa. Mas, aqui, as pessoas partem do princípio que este é um tipo de assunto que não pode ser abordado pela imprensa. É um acovardamento, mas, também, um servilismo voluntário. Não se questiona os atos do governante. Eu acho que se pode perguntar qualquer coisa para um governante, investigar qualquer assunto, porque pode ser de interesse para algumas pessoas.

Marcone Formiga - Por exemplo...
Diogo Mainardi - Um adultério pode não ser de interesse para mim ou você, mas pode ser para uma parcela da população, que tem o direito de achar que um presidente que trai a mulher não é digno de representá-la. Não vejo nada de errado nisso. É um respeito ao leitor. O jornalista que se põe nessa posição paternalista decidiu que o leitor não deve saber. Isso, eu questiono e não aceito. Não é papel do jornalista estabelecer o que o leitor deve ou não deve saber. O leitor deve deter as informações mais fidedignas possíveis para depois fazer sua própria avaliação.

Marcone Formiga - A tentativa de criação desse Conselho Nacional de Jornalismo ocorreu antes de explodir o escândalo do mensalão. Isso não foi uma tentativa de tutelar a imprensa, ou levá-la a auto-censura? Porque, certamente, o mensalão não seria revelado se o tal conselho fosse criado...
Diogo Mainardi - Eu teria sido, certamente, punido e enquadrado. Tenho certeza que eu seria uma vítima do Conselho. Existem outras maneiras de me punir - estou com 400 processos nas costas, com as justificativas mais absurdas. Obviamente, isso interfere na liberdade de expressão e opinião. Não é que eu esteja fazendo alguma injúria, baseada em algum fato falso. Não! Eles me processam por opinião. Existe uma indústria de cerceamento, e nisso os petistas são muito bons, baseada no processo contra os jornalistas. Muitas vezes não é feito contra a empresa, só contra mim.

Marcone Formiga - Tem alguma explicação para isso?
Diogo Mainardi - É o jeito de cercear a opinião. Eu acho que eles vão continuar tentando enquadrar a imprensa. Grande parte da imprensa se enquadrou voluntariamente. Muita gente já estava no lado de lá, e não precisava de tutela. O Conselho seria só para quem desgarrasse. Ou seja, para a minoria que não aceitasse obedecer aos cânones pré-estabelecidos. Mas, eu sempre penso o pior do petismo. Eu acho que não é nem por motivos ideológicos. Eu acho que o que eles queriam, de verdade, era que fossem dados a eles os melhores cargos e salários. Era só uma questão de afastar gente competente, que pudesse não fazer parte do bando. A principal motivação por trás de um petista é o dinheiro, sempre. Até nesses casos de tentativa de cerceamento, o desejo era poder interferir em nomeações, em cargos, restituições, salários... Era um instrumento de poder mais mesquinho ainda do que o que eles demonstram.

Marcone Formiga - Você entrou com um pedido de interpelação judicial contra o presidente. Como ficou essa demanda?
(Na ocasião, Mainardi revelou que um espião da Krool, contratado por Daniel Dantas, atribuiu ao presidente Lula uma conta em paraíso fiscal. A reação de Lula foi afirmar que a Veja tem alguns jornalistas que estão merecendo o prêmio Nobel de irresponsabilidade. E acrescentou: “Quem escreve uma matéria daquela é bandido, mau-caráter, malfeitor, mentiroso)
Diogo Mainardi - O juiz do Supremo, Gilmar Mendes, mandou arquivar o meu pedido de explicações. Eu precisava desse pedido de explicações antes de entrar com uma queixa-crime contra o presidente. Eu tenho certeza que ele se referiu a mim quando disse que o jornalista que escreveu aquela matéria era indigno e que sabiam o que ele andava fazendo nesses últimos anos. Ele foi malinformado. Certamente, tinham dito a ele: “Aquele filho da puta do Diogo contou isso a seu respeito, que o senhor tem contas no exterior”. Ele deve ter sido mal-informado, não tinha lido a matéria, e se referiu a mim. Eu precisava, apenas, que ele formalizas-se a denúncia. Ele, obviamente, como eu já esperava, não cometeu a loucura de dizer que eu era o bandido, porque eu não sou. Agora, o meu advogado está estudando a queixa-crime contra o presidente. Eu vou levar adiante, porque o bandido, ali, sou eu - e eu não sou bandido! Eu falei muita coisa sobre o presidente, mas ele não tece um motivo para me processar. Calúnia, eu não fiz!!!

Marcone Formiga - Como você reage quando pedem a sua demissão?
Diogo Mainardi - Eu não dou a mínima importância. Não tenho um cargo eletivo. Então, fico na mão do meu chefe, e ele gosta do que eu faço. Eu dependo de gente que não necessita da aprovação de três ou quatro petistas. Muita gente que lê a Veja ou assiste ao Manhattan Connection, provavelmente, se interessa pelo o que eu tenho a dizer. Mesmo quando não concorda, tem algum interesse em ver o que eu falo. No dia em que não tiverem mais interesse, vou ser demitido, ué! Acontece... (risos) Me sinto prestigiado dentro da minha revista, dentro do programa de televisão. Estou em um ótimo momento profissional. E não é uma coincidência. Sou fatalista, se eu for demitido, por algum motivo - e não será por motivos ideológicos, porque eu trabalho com gente de caráter -, será porque as pessoas não têm mais interesse sobre o que eu faço. Aí, paciência, invento outro jeito de ganhar a vida. Não tenho um cargo vitalício, a Veja tem que me empregar enquanto eu desempenhar bem a minha função. Caso contrário, dane-se, tem que me mandar embora, com toda razão.

Marcone Formiga - Você é um caso isolado na imprensa brasileira. O que a gente vê é acomodação. Por que isso?
Diogo Mainardi - Não sei! A tendência nacional é o conformismo. Comecei a falar mal do Lula por esse motivo. Não foi por uma inspiração ideológica qualquer, mas porque eu me assustei com o nível de conformismo dos brasileiros e da imprensa, em particular, em relação ao presidente. E foi em uma época em que ele tinha 94% de aprovação. A única razão que eu tive, nesse tempo todo, foi demonstrar que não é saudável confiar de maneira tão absoluta em ninguém, sobretudo em um político. Tem que se ficar atento, porque se não ele te dá um teco. A minha motivação foi essa e não tenho nada a me arrepender, pelo contrário. Fiz meu trabalho direitinho. Eu sei que minha função é muito limitada. Não acho que eu tenha uma ressonância tão grande assim. A revista é muito mais importante para mim do que eu para a revista. Estando dentro desses órgãos, pude manifestar a minha opinião, e acho que ela foi útil.

Marcone Formiga - Essa é a primeira experiência com um governo de esquerda no Brasil. Será que, também, não é a última?
Diogo Mainadi - Espero que sim! A esquerda acabou no mundo inteiro. Não faz mais sentido. Tem que ser criada uma sociedade diferente. Também, não temos que voltar para o coronelismo nordestino, que representa a direita no Brasil. Estamos indo para um mal caminho e, provavelmente, vamos persistir nele. Se o Brasil quisesse sair do buraco, teria que encontrar um caminho diferente. Se esse for, realmente, o último governo de esquerda da história, será um sinal de maturidade do país. Eu acho que o Brasil não está preparado para dar esse pulo. Acho que vamos continuar atrasados, sem uma força centrífuga. De alguma maneira, nos sentimos confortáveis com essa posição. Só que tem um preço, que cada vez será mais alto.

Marcone Formiga - Vivemos uma crise ética tão grande no Brasil que ser honesto passou a ser uma virtude, quando, na verdade, deve ser uma obrigação de qualquer cidadão. Não é o fim da linha?
Diogo Mainardi - É! Eu sou honesto, mas o que importa na minha profissão é que eu seja honesto intelectualmente. A única demonstração de honestidade que posso dar é a honestidade intelectual. Tento manifestar as minhas idéias de maneira muito transparente. É a única contribuição que eu posso dar, mais do que isso eu não poderia. Na minha área, eu faço isso da melhor maneira que posso.

Marcone Formiga - O Brasil ainda tem jeito?
Diogo Mainardi - Tudo indica que não. Como o país vai continuar existindo, tendo ou não jeito, a gente vai continuar vivendo aqui. A gente é a população brasileira, porque eu não! Eu vou me mandar assim que eu conseguir organizar as coisas. Mas, o Brasil vai continuar existindo. Então, vamos fazer o que dá no dia-a-dia.

Marcone Formiga - A melhor saída é comprar uma passagem para o exterior?
Diogo Mainardi - Não! Essa é uma saída muito individual... Não é uma saída que eu recomende a todas as pessoas. É pessoal e intransferível. Eu jamais iria embora do Brasil por eu ter me decepcionado. São escolhas individuais. Faz bem, de vez em quando, dar uma arejada. Depois, eu posso voltar. Me sinto muito livre. A única prerrogativa que eu estabeleci para a minha vida é ser livre.

Marcone Formiga - Para ver melhor à distancia?...
Diogo Mainardi - Mas, mesmo estando em casa, estou distante. Não estou em Brasília, não falo com políticos, quando eu falo me dá náuseas, enjôo de estômago! Não quero saber de político! Considero uma gente de terceira categoria. Quero que todos se danem! Sei que são necessários, sou democratissíssimo. Defendo a democracia até o osso, mesmo quando ela se demonstra ineficaz, como é o nosso caso. Mas, não quero nada com essa gente.

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