Sem adrenalina
Data de Publicação: 22 de julho de 2006

Carlos Lacerda, que transformava um palanque em ringue, procurando demolir seus adversários com a força da sua oratória, transformada em punhos, afirmava que uma campanha eleitoral só começava mesmo a partir da efervescência nos discursos e declarações dos adversários. Isso, só mesmo com muita descarga de adrenalina porque, da cintura para baixo, tudo é canela, vale tudo. Se prevalecer essa teoria lacerdista, a campanha eleitoral em Brasília está muito longe de começar, porque, até agora, nenhum dos candidatos tratou de chutar a canela dos adversários, ou, para ser mais atual, dar uma cabeçada no melhor estilo Zidane, o temperamental francês que descarregou adrenalina demais no final da Copa do Mundo.
Os principais concorrentes ao Palácio do Buriti estão, pelo menos até agora, muito bem comportados, nem um petardo verbal que possa causar ferimento grave. Mas, pelo sim, pelo não, a governadora Maria de Lourdes Abadia, em discurso no Recanto das Emas, na terça-feira, avisou que não está disposta a deixar um só ataque dos adversários sem resposta, ressaltando que estava se sentindo igual a São Sebastião, cheia de flechadas. Da intenção passou para a ação, rebatendo críticas feitas pela candidata do PT, Arlete Sampaio, que afirmara horas antes não ter visto qualquer obra da sua administração: "Não vê porque não anda em cidade-satélite, fica apenas no Plano Piloto recebendo relatórios e evita pôr os pés na lama, na poeira".
Sobrou também para o pefelista José Roberto Arruda, pelas críticas ao sistema de saúde do DF: "Vocês viram que o Arruda tirou o cartão do SUS do bolso e falou assim: "Olha, quando eu for governador vai ter" Sabe quantos daqueles já temos? 350 mil! Ou seja, a grande novidade dele já está sendo feita".

Na quarta-feira estava previsto um possível encontro entre Abadia e Arruda, durante a inauguração do comitê de Geraldo Alckmin, que ambos apóiam para suceder o presidente Lula. Mas com risco mínimo de um curto-circuito entre ambos.
Enquanto isso, cada um tratando de conquistar espaço. Arlete, por exemplo, aproveitou a mesma terça-feira para fazer uma peregrinação pelas igrejas, em busca de votos dos religiosos. Na semana anterior, manteve contatos com os evangélicos e reservou espaço em sua agenda para conversar com líderes religiosos de duas congregações e da Confederação Nacional das Igrejas Cristãs no Brasil. Trata-se de uma entidade que reúne sete denominadores, inclusive com representantes católicos.
Para Arlete Sampaio, essa peregrinação pelas igrejas tem um impacto relevante na comunidade, porque estabelece um método diferente de chegar à frente e pedir votos, porque demonstra que está aberta ao debate além de ser uma oportunidade de expor suas propostas. "Os pastores das igrejas têm demonstrado bem claro que as lideranças religiosas não podem induzir os votos dos fiéis", ressaltou.
Já José Roberto Arruda passou a terça-feira no Rio de Janeiro, onde foi conhecer a Vila Olímpica de Gamboa da Providência, que vem a ser uma das maiores favelas da cidade, além de uma demorada visita ao arquiteto Oscar Niemeyer, anunciando a intenção de construir uma vila olímpica em cada cidade-satélite do Distrito Federal, além de prometer a Niemeyer, de quem é amigo pessoal, que pretende, como governador, preservar Brasília.

Durante o encontro com o arquiteto, Arruda detalhou o seu projeto para garantir a preservação de Brasília como patrimônio universal da humanidade, arrancando um elogio de Niemeyer: "Ele é habilidoso e gosta da cidade". Nas despedidas, depois de meia hora de conversa, assumiu outro compromisso: "Se for eleito, farei de 2007 o "Ano Oscar Niemeyer". Ou seja, uma homenagem pelos seus 100 anos que serão comemorados no próximo ano.
Com esse estado de espírito entre os candidatos, dificilmente a teoria política de Carlos Lacerda vai prevalecer.
É melhor assim.
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