A Bola é Quadrada
Data de Publicação: 15 de julho de 2006

O fracasso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo provocou uma discussão no país, que ainda está longe de terminar. Não se trata de condenar Parreira, pela sua omissão como técnico, ou a performance de craques como Ronaldo, Kaká, Roberto Carlos ou Ronaldinho Gaúcho. O tema é mais abrangente: até onde a auto-estima do brasileiro, afetada com toda a crise ética que o país enfrenta, pode ser atingida?
Como explicar, também, o gesto do francês Zidane em agredir com uma cabeçada o italiano Materazzi? O estádio de futebol está caminhando para se transformar em uma arena de gladiadores?
Outra questão: como fica, para os garotos brasileiros, o referencial que sempre alimentaram em torno de craques que tornaram-se milionários, pretendendo imitá-los?
Professor de Sociologia da UnB, Aldo Antonio de Azevedo, que também pos-sui especialização em treinamento desportivo, além de mestrados obtidos no exterior, analisa em entrevista todos esses pontos.
A conclusão é que, para o Brasil, a bola ficou quadrada.
Marcone Formiga - O que levou uma estrela do futebol mundial como Zidane agredir um adversário em uma final de Copa do Mundo?
Aldo Azevedo - É típico de al-guns esportes que exigem o contato físico a ocorrência de algum tipo de agressão física ou violência. Existe uma agressão que é natural do esporte, no sentido de luta, determinação, superação, competição... Quando essa determinação é extrapolada, é possível ocorrer alguma agressão física. Existe a chamada “teoria do instinto nato”, de base fi-siológica, que é tipicamente do comportamento animalesco, instintiva... Podemos abrir um paralelo disso com relação ao esporte, porque, de certa forma, essa agressividade animal tem a ver com alguma forma de competição, seja por comida ou território. Outro fator que pode ter uma relação explicativa é a chamada “teoria da aprendizagem”, aquela em que a violência é um comportamento ad-quirido a partir das relações sociais.
Marcone Formiga - Mas o que levaria a esse tipo de violência?
Aldo Azevedo - Não tenho clareza sobre o que o Materazzi ou o Zidane possam ter dito naquele momento, o que futuramente deverá ser elucidado, mas uma coisa é certa: o Zidane perdeu seu controle emocional e respondeu algo que tenha ouvido e que, evidentemente, não o tenha agradado, com uma agressão física. O Zidane, no momento da agressão, transgrediu sua aura de herói, mito e ícone, e, segundo algumas interpretações filosóficas, tornou-se humano. Agressões físicas, como esta apresentada pelo Zidane, são contrárias à ética do esporte. São contrárias à prática do
fair play, tão comentado em época de Copa, criado, na década de 60, para combater a violência no espor-te.
Marcone Formiga - Por que ser o país do futebol é tão importante para o brasileiro?
Aldo Azevedo - Realmente, existe uma cultura do futebol no Brasil. O futebol é hegemônico den-tro da nossa cultura esportiva, diferentemente da cultura esportiva de outros países, como os Estados Unidos, por exemplo, que possui mais de um esporte na predileção popular. Apesar de não ter sido criado no Brasil, o futebol foi transplantado à nossa cultura. É o esporte dominante no país, no sentido de aceitação popular. O futebol, de certa maneira, traduz o modo de ser do brasileiro - aquela coisa do “futebol moleque”, a ginga. Isso tu-do tem a ver com a herança que nós recebemos dos primeiros escravos que aqui chegaram. Tivemos uma base cultural escravocrata, formada por sudaneses e bantos, de onde saiu a capoeira. O futebol incorpora muito essa ginga, esse jogo de corpo. Por isso, o nosso futebol tem es-sa característica, que alguns cha-mam de “futebol arte”. O Brasil é um país que respira e vive futebol.
Pedro Barlette - Mas, durante a Copa do Mundo, isso vira uma loucura coletiva...
Aldo Azevedo - A Copa do Mundo é o único evento no país capaz de conseguir essa mobilização intensa, nenhum outro evento é capaz disso. É comum vermos o envolvimento da mulher, que em época de campeonatos brasileiros ou estaduais não acompanha o esporte, mas, em época de Copa, acaba se envolvendo, transformando-se em torcedora. Essa cultura do futebol chega a ser dominante até em relação a outras esferas da cul-tura.
Marcone Formiga - Como, por exemplo, a religião, a música...?
Aldo Azevedo - Isso. O futebol mexe com o imaginário da população. Muitas vezes ele traduz, como diz o antropólogo Roberto da Mat-ta, “os próprios dramas e dilemas do povo brasileiro”, questões de injustiças sociais... O que significa uma derrota, por exemplo? Não uma derrota como essa que sofre-mos na Copa do Mundo, porque ela foi muito mais uma decepção do que uma frustração, na real acepção da palavra, porque a sele-ção não demonstrou sequer vonta-de de vencer contra a França, ao contrário da seleção Argentina, que lutou, foi à prorrogação e acabou perdendo nos pênaltis, mesmo as-sim tendo meios de justificar a derrota. O esporte é uma instância de decisão imediata. Uma das razões pelas quais o futebol é fascinante é a questão da incerteza, de não saber quem vai ganhar. Não existe a pre-visibilidade.
Marcone Formiga - Existem dois Brasis: um é o que sai às ruas para comemorar uma vitória da seleção; o outro é o que se omite diante de escândalos, como o do mensalão... O que é isso, alienação?
Aldo Azevedo - A Copa do Mundo é o único evento que pro-duz essa mobilização intensa e nós seríamos imbatíveis se essa mesma mobilização acontecesse por outros direitos sociais, que são muito mais importantes. Uma conquista de Copa do Mundo não representa, em momento nenhum, a redenção do povo brasileiro, que é um povo sofrido, que carece, inclusive, de li-deranças.
Pedro Barlette - Quem são os nossos representantes, nossos líderes, lá fora?

Aldo Azevedo - São os jogado-res que vestem a camisa da seleção brasileira. Então, depositamos as nossas esperanças nesses jogadores. Em outras ocasiões, nós já até tentamos atingir esse nível com o time de voleibol, até o próprio Ayrton Senna chegou a desempenhar esse papel, justamente no espaço de tempo que o Brasil ficou sem conquistar Copas do Mundo. Não vou falar alienação, no sentido total da palavra, pelo seguinte: existe uma parcela da população, a classe menos favorecida, que o único di-vertimento que tem no final de semana é assistir a uma partida do fu-tebol. Fica muito difícil afirmar que existe uma alienação total. Há uma alienação, sim, na medida em que a Copa do Mundo provoca um amortecimento na consciência das pes-soas, em que elas esquecem de muitos problemas sociais.
Pedro Barlette - Ou seja, basta dar pão e circo?
Aldo Azevedo - O esporte, de modo geral, e o futebol, de modo especial, têm esse poder de transportar de um mundo real para o mundo do jogo, que é um mundo mítico, que produz uma realidade paralela. O brasileiro deposita nesse mundo a nossa possibilidade de vingança, no sentido simbólico, por sermos um país subdesenvolvido, aí entrando a idéia de universalidade. Quando vencemos, no campo, países economicamente mais fortes, estamos, de certa forma, respondendo a eles, no âmbito esportivo, porque os jogadores re-presentam a população brasileira, defendem as cores do país . No período da Copa, houve um aquecimento intenso no comércio, com venda de televisões de plasma, por exemplo. Agora que fomos derrotados, o comércio terá de fazer al-gumas liquidações para poder vender estes produtos. Nós tivemos nesse interim a CPI dos sanguessugas, a rebelião do PCC, que foi aba-fada pela polícia paulista e, aqui em Brasília, greve dos rodoviários, um motim no CAJE. Esses fatos não tiveram a repercussão que deveriam durante a época da Copa, passaram praticamente despercebidos pela população. A nave espacial Discovery iria ser lançada durante o jogo do Brasil contra a França. Só quem lê os jornais esteve ciente disso. Inclusive, o lançamento foi adiado, logicamente não em razão do jogo. É um acontecimento importante.
Marcone Formiga - Mas de que adianta essa mobilização inten-sa?
Aldo Azevedo - Quando eu digo que não há uma mobilização intensa é porque necessitamos de um resgate de conquistas mais permanentes. Precisamos de uma educação pública de qualidade, um sistema de saúde que não se encontre na UTI, emprego a todos, segurança pública, já que está acontecendo uma inversão de valores, porque nós é que estamos tendo que ficar enclausurados para nos proteger. Então, há um esquecimento latente da realidade política e social em que vivemos.
Pedro Barlette - O atacante francês Thierry Henry disse que o fato de o Brasil possuir tantos talentos no futebol se explica em razão de as crianças brasileiras passarem o dia inteiro jogando futebol, já que grande parte não vai a escola, enquanto os france-ses passam mais 10 horas por dia estudando. Isso não é preo-cupante, até porque, hoje, todo garoto quer ser um jogador de fu-tebol famoso, já que se faz for-tuna rápido, uma fama global?
Aldo Azevedo - Podemos fazer algumas interpretações. Primeira-mente, a França é tido como o país-berço da cultura européia. Tive a oportunidade de visitar a França antes da Copa do Mundo e pude perceber que a França continua com essa aura de país criador de tendências artísticas e culturais, co-mo foi desde a época do Renasci-mento. É, sem dúvida, uma cultura bem diferente da nossa, com siste-mas de educação distintos.
Pedro Barlette - Qual é o car-tão de visitas que nós, brasilei-ros, apresentamos quando chegamos à Europa, somos conhecidos através de que?
Aldo Azevedo - Através do fu-tebol! Eu, particularmente, pude experimentar isso. Quando você me diz que existe aquela coisa do sonho do menino que quer ser joga-dor de futebol, que é o jogador que está nos representando ali? É o fa-velado, o feio, o dentuço... Ou seja, é o que veio de uma classe desfavo-recida e que conseguiu ascender socialmente pelo futebol, enquanto o discurso dominante na sociedade capitalista é ascender socialmente pela educação, trabalho... O fato desses jogadores saírem de classes menos favorecidas e conseguirem chegar, hoje, no patamar em que se encontram, explica esse desejo da criança carente de melhorar de vida por meio do futebol. Isso aca-ba gerando aquilo que nós chamamos de “ilusão do êxito espor-tivo”. O funil para que essa criança chegue lá é muito estreito, é uma hierarquia muito rígida.
Marcone Formiga - Por quê?
Aldo Azevedo - Porque, para que você chegue lá, você tem que ser o melhor, se for mais ou menos não chega lá. Quantos jogadores que revelaram-se grandes promes-sas e não conseguiram escalar essa pirâmide?! A declaração do Henry demonstra, em princípio, uma idéia de superioridade e dominação européia com relação ao Brasil, além de um preconceito para com a nossa cultura, que é riquíssima.
Marcone Formiga - O senhor falou da referência dos brasilei-ros, que é associada ao futebol. Mas, hoje, depois desse fracasso, não seria perigoso tem como o único referencial o futebol? O que o fracasso na Copa do Mundo pode resultar?
Aldo Azevedo - Nós temos uma seleção que saiu daqui com as expectativas mais positivas possíveis e imagináveis, acreditando que seríamos campeões, que éramos os melhores. O que ocorre agora que perdemos o torneio? A apresenta-ção medíocre e melancólica que nós tivemos vai fazer com que a seleção perca um pouco da credibilidade internacional e, consequentemente, o futebol brasileiro também. Teríamos, agora, que tratar de algu-mas perspectivas futuras para o fu-tebol brasileiro, porque a perda de credibilidade ficou visível. O Brasil precisa ter um poder de reação não só no futebol. Precisamos levantar, também, outras bandeiras - a da ética na política, da distribuição de renda. O Brasil é um país que se encontra abaixo do Paquistão na questão de atendimento aos direi-tos sociais básicos. Não podemos nos apoiar apenas no futebol, como se fosse nossa única forma de salvação. Nós precisamos levantar outras bandeiras e o país precisa se impor em outros setores lá fora que não o futebol.
Pedro Barlette - E como fica a auto-estima do povo brasileiro?
Aldo Azevedo - Sem dúvida que isso tem um efeito direto em cima da auto-estima do povo brasileiro. Como o futebol é a nossa possibilidade de reação diante de toda essa dominação que nos é imposta, de certa forma, uma derrota na Copa do Mundo, ainda mais da forma em que ela ocorreu, demonstra to-da nossa fragilidade. Com o final da Copa do Mundo, chega o momento da população reagir. Neste segundo semestre vamos vivenciar um outro evento importante, que necessita de uma mobilização por parte da população, para que se escolham representantes dignos, que tenham uma perspectiva ética, de resgate da política, até porque tudo é filtrado pela política, inclusive o futebol. Dentro do futebol, existe muita corrupção, lavagem de dinheiro... São problemas seriíssimos! Podemos, inclusive, comparar o cartola do futebol brasileiro com a figura do político.
Marcone Formiga - Por quê?
Aldo Azevedo - Existe uma identificação entre eles. Essa auto-estima, de fato, diminui. A seleção, nesta Copa, jamais demonstrou ser um grupo, eram celebridades individuais. O Brasil, antes da competição, já era tido como o favorito globalizado. Em qualquer país que fosse perguntado qual equipe seria a grande atração da Copa, o Brasil seria a resposta comum. Esse favo-ritismo antecipado provocou um aumento de pressão e de responsabilidade em cima da equipe brasi-leira, que não demonstrou estar preparada para isso. Outro fator que pode nos ter prejudicado foi a visível falta de consciência coletiva. Quanto maior for a solidariedade, o espírito de equipe, em um grupo, maior consciência coletiva e união vai haver. Quando se tem, dentro de um grupo, alguns indivíduos com maior raio de ação com relação aos outros, a coesão é quebrada, desfeita. Nós não tivemos, em nenhum momento, uma equipe coesa. Tínhamos um conjunto de estrelas, que eram, na verdade, produtos da mídia, de marketing, com possuem seus contratos milionários no exterior.
Pedro Barlette - Qual a lição que fica disso tudo?
Aldo Azevedo - Que fica muito difícil fazer um grupo homogêneo, com consciência coletiva, dessa maneira, juntando celebridades que tenham raios de ação e auto-nomia diferentes. Aí entra a ques-tão de hierarquias dentro do grupo, que foi um problema. Era percep-tível que a seleção era dividida por dois tipos de jogadores - as revelações e os jogadores mais experientes, os chamados medalhões. Eu, também, não percebi quem era o líder do grupo. Tínhamos um capitão, o Cafu, mas não tive a impressão clara de liderança da parte dele em nenhum momento da Copa do Mundo. O líder no esporte não é, necessariamente, o craque, e, sim, aquele que tem a capacidade de gerenciar o grupo e que tenha uma representação de respeito. Não vi ninguém se apresentando dessa maneira na Seleção Brasileira, tanto dentro de campo, como fora dele, que seria o papel do treinador.
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