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Ano 9 - 13 a 19 de Maio 2006
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São Paulo em chamas

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Data de Publicação: 15 de julho de 2006
A cidade brasileira com maior população e mais importante economicamente voltou a ficar refém de bandidos dois meses depois da série de atentados que a aterrorizaram. A partir da noite da terça-feira e o início da noite da quarta, o crime organizado demonstrou sua ousadia com uma nova ofensiva, nada menos que 71 ataques a alvos civis e militares. Até o fim da tarde haviam sido registradas oito mortes, além de ônibus incendiados, super-mercados, agências bancárias, bases da polícia e casas de policiais.

Os novos ataques ocorreram depois da prisão de Emivaldo Silva Santos, 30, o BH, acusado de ser o "general" do PCC na região do ABC. Ele foi preso no início da noite da terça-feira, na rodovia Imigrantes, em uma operação conjunta das polícias Civil e Militar. Por isso mesmo, a suspeita que prevalece é a de que os ataques estariam relacionados à prisão de um dos chefes da facção ou à transferência de presos.

Diferente da ação de maio, também atribuída à facção Primeiro Comando Capital (PCC), os ataques da quarta-feira, considerados os maiores até agora, começaram em torno das 3h, quando os bandidos atiraram e jogaram uma bomba incendiária contra um supermercado na rede Compre Bem, na rua Condessa de São Joaquim, região da Bela Vista. O artefato não explodiu, mas o fogo atingiu jornais próximos à entrada da loja. Bilhetes em folhas de papel sulfite foram deixados na entrada do supermercado, com a seguinte mensagem: "Morte a opressão carcerária".

Para o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, os ataques teriam sido provocados pela divulgação de uma lista de 40 presos da facção criminosa que age nos presídios. Esses presos, supostamente, seriam transferidos de prisões paulistas para a penitenciária de segurança máxima de Catanduvas (PR). Ele negou, no entanto, a existência da lista, acreditando que a preocupação com as transferências foi constatada em conversas de presos captadas por escutas telefônicas.

A sua interpretação é a de que a publicação dessa lista inspirou o movimento, como se fosse uma forma de avisar: ou isso pára, não se remove, ou vai ter um recrudescimento da violência.

Os ataques foram concentrados em alvos civis, com 50 ônibus incendiados, e oito policiais assassinados na capital paulista e na Baixada Santista.

Quatro dos sete suspeitos presos na quarta-feira foram encontrados a partir de uma denúncia feita por um agente penitenciário. Suspeito de ser o chefe da facção na região do ABC paulista, Emivaldo Silva Santos foi um dos primeiros presos. Outro foi Elias Milton de Oliveira, de 21, que incendiou cinco carros numa concessionária na Mooca. Foi preso por funcionários de um posto de gasolina e entregue à PM. Liberado, mas preso em seguida por incêndio e formação de quadrilha. A polícia descobriu, também, que ele recebera ordem, por celular, para iniciar os ataques, com a missão de incendiar supermercados, bancos e concessionárias. Elias já tinha cumprido pena por tráfico de drogas.

A ação foi avaliada pelos policiais militares como tática de guerrilha.

Depois do impacto que os ataques provocaram vieram os estilhaços políticos. De Salvador, onde se encontrava quando inteirou-se sobre o que ocorrera em São Paulo, o presidente Lula criticou o governador Cláudio Lembo (PFL), demonstrando o propósito do governo federal em insistir na oferta do auxílio da Força Nacional de Segurança Pública e do Exército para conter a onda de violência em São Paulo. Imediatamente, determinou ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que fosse a São Paulo conversar com Lembo e informá-lo que a penitenciária federal de Catanduvas está apta para receber os presos, com capacidade para 200 detentos, onde celulares não en-tram.

A análise que Lula faz é a de que a situação de São Paulo não é normal, nem está sob controle, ao contrário do que afirmam autoridades paulistas. Pelo contrário, está convencido que é muito grave e acha que chegou a hora de se combater com rigor o que classifica como a "indústria do crime". Seu argumento é o seguinte: "Se têm controle, não poderia acontecer o que está acontecendo. Na hora em que acharem que é oportuno o envio de tropas, que nos comuniquem. Se o governo de São Paulo continuar achando que a situação está normal, o governo federal não pode fazer nada".

O presidente está convencido que é preciso uma ação enérgica da polícia para evitar que os presos comandem as quadrilhas de dentro da cadeia. Essa mesma linha de raciocínio tem o ministro da Justiça, que, na quarta-feira mesmo, conversou com o governador Cláudio Lembo, por telefone, condenando a exploração eleitoral da crise, seja pelo governo ou pela oposição: "Não é possível que uma situação em que está morrendo gente todos os dias seja objeto de disputa eleitoral ou de guerra política. Este é um ano difícil, mas é preciso que os agentes públicos mantenham essa consciência bem nítida".

Lula, por sua vez, ao ser questionado sobre a possibilidade de a violência ser usada eleitoralmente, acrescentou: "Então vamos criar um país de mudos, porque não se pode falar nada em um ano eleitoral. Os bandidos não estão preocupados se vai ter eleição ou não".

Mas a disposição do governador Cláudio Lembo continua a mesma, recusar novamente a ajuda da Força Nacional de Segurança Pública, divulgando uma nota afirmando que a oferta não é oportuna nem necessária. E argumentava no texto: "O governo estadual mantém a posição adotada na terça-feira com relação à oferta do governo federal. O reforço policial não é oportuno nem necessário, pois o efetivo da segurança paulista é o maior e mais bem equipado entre os estados da federação. Além do trabalho de investigação ser diário e contínuo".

O terror acabou alimentando uma disputa política.

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