Desaquecendo
Data de Publicação: 15 de julho de 2006
Quase confirmando as previsões feitas, parecia que o termômetro da campanha eleitoral no Distrito Federal iria dar uma empinada, com os candidatos a cargos majoritários esquentando o cenário com a troca de farpas. Mas, na segunda-feira, surpreendentemente, o clima de animosidade serenou, sem que fosse iniciada uma guerra política entre adversários.
Com os dois principais candidatos ao Palácio do Buriti, José Roberto Arruda e a governadora Maria de Lourdes Abadia iniciando a campanha, a disputa começou acirrada. Na madrugada do dia seis, Arruda deu a largada visitando hospitais públicos, criticado pelo ex-governador Joaquim Roriz, que considerou o seu gesto “pura demagogia”, enquanto o vice de Abadia, o ex-ministro do STF, Maurício Corrêa, sugeria-lhe que respeitasse o sono dos enfermos, com o pefelista retrucando que se isso os incomodava era “porque a situação não estava boa”.

Mas, foi depois que Abadia, Roriz e Corrêa lançaram suas candidaturas, no sábado, dia nove, tendo no palanque o presidenciável Geraldo Alckmin, que a temperatura voltou a subir. A mobilização popular, estimada em 40 mil eleitores, realizada na Facita, em Taguatinga, foi considerada por assessores próximos ao tucano como a maior manifestação que Alckmin teve até agora em sua corrida ao Palácio do Planalto.
O próprio Alckmin manifestou-se impressionado com a popularidade do ex-governador e da governadora Maria de Lourdes: “Abadia aprendeu muito em uma boa escola. Ela foi co-pilota do grande comandante Joaquim Roriz”, destacou em seu discurso.

Uma grande festa, sem dúvida, com cerca de 800 ônibus transportando eleitores, com as despesas pagas pelos partidos, porque, sem que a coligação obtivesse o registro do CNPJ, o que só ocorreria na quarta-feira, não poderia assumir a despesa.
Mas a pulsação do estado de espírito podia ser avaliada a partir de declarações feitas pelo candidato a deputado federal e ex-administrador da Ceilândia, Rogério Rosso, ao anunciar uma guerra declarada a José Roberto Arruda: “Esse Arruda vai para um lado e nós vamos para o outro. A melhor estratégia é acordar cedo, preparar os sapatos e andar pelas cidades do DF, mas não como um andarilho, sem rumo. A idéia é mostrar o que você fez e o que vai fazer por Brasília”.
Coube ao deputado federal Tadeu Filippelli, presidente regional do PMDB, apertar o gatilho: “Arruda, desde o primeiro momento, até hoje, vem tentando confundir o eleitor com a tese de que é ele o candidato de Roriz. Mas, a partir de agora, vai ficar claro que Roriz apóia mesmo é a governadora Abadia”. O próprio Roriz seguiu nessa linha: “Quem disser que ela não é o nome que eu escolhi, olhe nos olhos dele e verá que está mentindo”.
Alckmin no palanque da governadora Abadia desencapou os fios de alta tensão entre o PFL e o PSDB, ao ponto de o candidato a vice, José Jorge, ter recebido a missão de desembarcar em Brasília para funcionar como bombeiro. A pane do avião em que viajava, no entanto, fez com que ficasse retido em São Paulo e não chegasse a tempo em Brasília, no sábado. Mas Arruda fez chegar aos dirigentes do PFL a sua contrariedade.
No domingo, um dia depois, José Roberto Arruda assestava suas baterias na adversária, insinuando que teria ameaçado servidores comissionados do GDF de demissão se não comparecessem ao comício de lançamento da chapa encabeçada por Roriz e Abadia. Em seu discurso, em um comício realizado no centro de Ceilândia, ironizou: “Ninguém que está aqui foi ameaçado de perder o emprego”, e dirigindo-se ao senador José Jorge sugeriu: “Isso, senador, você precisa contar ao Geraldo Alckmin”. Depois, orientou a militância para reagir diante das ameaças: “Aqueles que queriam e não podem me acompanhar porque estão sendo ameaçados devem fazer cara de bobo e nas urnas votar com o coração”.
Ao tomar conhecimento do que ocorrera em Ceilândia, Maria de Lourdes definiu o posicionamento de Arruda com uma única palavra: “Desespero”. Justificando por que: “Nós temos uma coligação com nove partidos e mais de 200 candi-datos. Nosso comício foi de um sucesso enorme, tanto que impressionou o can-didato Alckmin. Ninguém obrigou ninguém a nada. Eles são uns ingratos, pois todos os servidores indicados pelo PFL continuam no governo. Já esperávamos esses ataques e não vamos entrar nesse jogo.”.
Surpreendemente, na terça-feira, ao reassumir seu mandato de deputado federal, Arruda se auto-proclamava de paz e amor, demonstrando que não pretendia alimentar o clima de beligerância política. Inclusive, ao ser divulgada uma pesquisa que lhe atribui 50% das intenções de votos reagiu até com humildade, apenas comentando que "os números estão se consolidando", além de lembrar que não se deve festejar uma vitória antes da hora. "Só se vence nas urnas. Vou continuar com humildade e dedicação", comentou.
Analisando a mesma pesquisa, que lhe atribuiu 23% das intenções de votos, a governadora Maria de Lourdes Abadia ressaltou que foi feita em apenas cincos dias de sua campanha, considerando o resultado positivo: "Começamos com 3% e passamos dos 20%. Iniciamos sábado e já vemos resultados. Vamos crescer mais com a propaganda gratuita, quando poderemos mostrar ao povo o nosso programa de governo".
Na quarta-feira, a candidata petista Arlete Sampaio passou por um constrangimento, quando fazia uma caminhada pelo Cruzeiro Center: ao entrar em um salão de cabeleireiro uma senhora recusou-se a cumprimentá-la. Logo em seguida, ao entrar em outra loja, ouviu o seguinte do proprietário: "Eu vou votar no Lula para presidente, no Agnelo para senador e no Arruda para governador". Mas Arlete não se abalou, explicando depois: "Quem faz campanha tem de estar preparado para ouvir críticas. E vou mostrar que o PT é o partido que tem mais políticos honestos por metro quadrado".
Mas a surpresa maior veio na mesma quarta-feira, quando o ex-governador Joaquim Roriz revelou, durante o culto de ação de graças na residência oficial de Águas Claras, que não se sentia desconfortável com o fato de Arruda pedir voto para ele, como candidato ao Senado. Roriz afirmou que sempre defendeu o nome de Arruda para ser candidato a governador pela base aliada e só assim não aconteceu "porque a direção nacional do seu partido impediu". Político experiente, não descarta o apoio da chapa de Arruda e Paulo Octávio: "Nunca ouvi falar que existe voto de sobra, só que falta. Se eles querem votar em mim, eu agradeço. Só tem uma coisa clara: o meu candidato, lamentavelmente, não é ele, é Abadia!"
A governadora, que estava ao lado, confirmou o que Roriz dissera a respeito de Arruda, acrescentando: "Quando a gente via as pesquisas, achava que ele era o mais indicado. Todos chegamos a pensar nisso, mas depois não deu. Eles tomaram a decisão e nos abandonaram. Nos organizamos e estamos de um lado e eles do outro, sendo que o Roriz está conosco".
Pelo jeito, essa campanha promete muito.
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