Condenado pela história...
Data de Publicação: 15 de dezembro de 2006

Sem condenação nos três processos penais em que figurava como réu (por violação de direitos humanos, evasão fiscal e falsificação), o ditador Augusto Pinochet, que morreu no domingo, já tem uma condenação pela história: é considerado um dos mais sanguinários ditadores do mundo. Despertando ódio e idolatria durante seus últimos anos de vida, depois de ser velado, seu corpo foi cremado na terça-feira. Ironicamente, Augusto Pinochet Ugarte morreu no Dia Internacional dos Direitos Humanos, que ele tanto violentou.
A sua história como ditador, governando com mão de ferro o Chile, de 1973 a 1990, é uma repetição de muitos outros da América Latina. Só que ele teve mais poderes enfeixados em duas mãos marcadas pelo sangue daqueles que ousaram resistir ao regime, com muita semelhança aos nazistas que se instalaram na Alemanha, levando o país a quase uma destruição total. Também nisso, o ditador chileno é contraditório, porque conseguiu alavancar a economia do país, ao ponto de ser uma das mais estáveis do continente.
Não foi por acaso que a presidente do Chile, Michelle Bachelet, logo depois da morte do ex-ditador, conclamou seus compatriotas a não esquecerem o passado, continuando a buscar justiça pelos crimes de direitos humanos cometidos pela ditadura. Ela própria foi presa e torturada, juntamente com sua mãe, em um dos centros de detenção de adversários políticos do regime militar. Inclusive seu pai, um general da Força Aérea, foi assassinado sob tortura pelos militares que tomaram o poder depois da queda do socialista Salvador Allende.
Michelle Bachelet não concedeu honras de chefe de Estado a Pinochet, que teve direito apenas aos rituais destinados a ex-comandantes-chefe do Exército. Em uma manifestação pública, feita enquanto Pinochet estava sendo velado, a presidente afirmou que tem memória, acredita na verdade, aspira à justiça e tem profunda convicção, além da vontade de superar adversidades, os momentos amargos, e entender que, a exemplo dos ciclos pessoais, também nos ciclos da história de uma nação se abrem novos caminhos, nos quais o que se aprende do passado ajuda a se enfrentar um futuro melhor.
Ela fez essa manifestação no mesmo palácio presidencial onde, em 1973, Salvador Allende se matou para não ser preso por Pinochet, logo depois do golpe militar. Emocionada, ainda acrescentou: "Em cada nação, seu povo sabe e saberá fazer o relato e a construção desses eventos e de seus protagonistas. A história vai sendo construída e as verdades vão sendo instaladas".
Enquanto mandava matar e torturava seus adversários, Pinochet conseguiu impor uma política econômica, entre 1974 e 1975, concebida em laboratório de economistas de Chicago, liderados por Milton Friedman, baseada em uma abertura unilateral, com privatização, reforma trabalhista, além de aperto fiscal e monetário. A conseqüência imediata foi o desemprego, que dobrou, e um recuo de 13% na economia, que levou três anos para se recuperar. Logo depois, com o choque do petróleo e a alta dos juros internacionais, o Chile mergulhava em nova crise.
Nos primeiros 12 anos do governo de Augusto Pinochet, o Chile agonizou economicamente, com uma taxa média de crescimento, de 1973 a 1985, beirando a 1%. O regime só se manteve no poder pela truculência dos militares, inibindo manifestações da sociedade. Mas, na metade dos anos 80, a economia chilena foi aquecida, a partir da privatização do sistema de Previdência e um ajuste fiscal, levando a um de crescimento de 7,3% ao ano. Hoje, o país integra o clube daqueles que mais concentram riquezas no mundo, sem distribuição de renda.
E não foi por acaso que nas ruas de Santiago, enquanto o corpo de Pinochet era velado, que uma multidão de chilenos entoava um refrão: "Olê, olê, morreu o "Perrochet" (perro, em espanhol, é cachorro).
Além da condenação da história, Pinochet deixou como herança, para a maioria dos chilenos, o ódio.
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