O céu por testemunha
Data de Publicação: 7 de outubro de 2006
Pelo jeito, ainda vai levar um bom tempo para que sejam conhecidos todos os detalhes do acidente que provocou a queda do Boeing 737-800 da Gol que caiu na sexta-feira, dia 29, com 155 ocupantes, naquele que já é considerado o maior acidente na história da aviação brasileira.
Sabe-se, até agora, pouca coisa, faltando que se apure, com mais detalhes, de que forma o Boeing se chocou no ar com um Legacy, da Embraer, durante o vôo 1907, no trecho Manaus-Brasília. De concreto, até agora, só existe a informação que o Legacy sumiu do radar, de acordo com o Cindacta, e acabou pousando na base aérea de Cachimbo (Pará).
Pelo menos três meses é o prazo que a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) prevê para que as investigações cheguem ao fim, quando, afinal, será possível concluir as causas que provocaram a tragédia do Boeing, que tinha apenas 234 horas de vôo, comandado por um piloto experiente, Dércio Chaves, que, por ironia do destino, há menos de um mês, trouxe o Boeing dos Estados Unidos para entrar em operação na empresa.
Reconhecido por sua competência, o amor pela profissão e carisma, Dércio era um aficcionado por tudo que se relaciona a aviões, transmitindo ao seu filho, João Marcelo, de 10 anos, essa mesma devoção, a ponto de decorar com miniaturas de protótipos o quarto do garoto no apartamento do Sudoeste.
O próprio presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, admite que as investigações sobre as causas do acidente serão muito complexas, até que se chegue a uma conclusão, se houve ou não falha técnica ou humana. Existe, por exemplo, a possibilidade de perda de contato dos pilotos da Gol com a torre de comando, antes da queda do aparelho.
Ao mesmo tempo, são consideradas algumas dúvidas, avaliadas pelos técnicos envolvidos nas investigações. Uma delas, por exemplo, é saber por que os dois aviões estavam no mesmo nível (altura), quando o mais seguro seria manter uma diferença de pelo menos 300 metros entre o Boeing e o Legacy.
Também intriga os investigadores o fato de o choque ter ocorrido com dois aviões modernos, de última geração, equipados com instrumentos anticolisão, que emitem sinais luminoso e sonoro, além de instruir os pilotos sobre como proceder em situação de risco iminente, como a aproximação de um outro avião.
No sábado, 20 horas depois do acidente, sabia-se apenas que ocorrera uma colisão do Boeing com o jato executivo, fabricado pela Embraer e que tinha sido entregue ao comprador, um americano até então não identificado. Pela avaliação da Infraero, os dois aviões deveriam estar voando em altitudes diferentes (36 mil e 37 mil pés). O que levou a se chocarem é a maior indagação feita entre os envolvidos nas investigações.
No domingo, em depoimento à polícia de Mato Grosso, Joseph Lepour e Jan Palladino, piloto e co-piloto do Legacy, disseram não ter visto nada, nem antes nem depois do que definiram como um “leve impacto”. Para aprofundar as investigações, o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, está analisando a caixa-preta e o funcionamento dos instrumentos de bordo e a comunicação entre pilotos e o controle aéreo. A caixa-preta do Boeing foi encontrada na segunda-feira, com avarias.
Por enquanto, no entanto, surgem apenas especulações, como a do especialista em aviação Ivan Sant 'Ana, que tem livros publicados sobre acidentes aéreos. Ele considera a possibilidade de ter ocorrido falha humana no momento da colisão entre as duas aeronaves. Também não descarta a possibilidade de ter ocorrido falha do centro de controle, o que fundamenta pelo fato de praticamente não existir tráfego aéreo na região, considerada por ele como “a área mais improvável do mundo para ocorrer uma colisão entre aviões”.
Outro especialista, Protógenes Pires, professor de tráfego aéreo, afirma que no momento do choque as duas aeronaves estavam mais velozes que um disparo feito por um revólver calibre 38, que tem a média de 1.300 quilômetros por hora. Avalia Protógenes, ex-professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que quando se tocaram, os dois aviões deviam estar a uma velocidade média de 800 quilômetros por hora, o que eleva para 1.600 quilômetros, ou seja, 300 quilômetros mais rápido do que o disparo de calibre 38.
Já o especialista em aviação Gianfranco Beting acredita que o Boeing tenha mergulhado de nariz: “Se o impacto é suficiente para impedir que o avião seja comandado, ele vai cair de nariz, até pelas características de peso e balanceamento”.
A cada dia, novos fatos surgiam, para a melhor compreensão do que realmente acontecera. Na terça-feira, tomava forma de um fato concreto a avaliação técnica de que o acidente teria resultado de uma combinação de erros no controle aéreo de Brasília, que seria ineficiente para a cobertura de rádio no Centro-Oeste.
Por causa do acidente, de qualquer forma, as autoridades aeronáuticas resolveram despertar atenções sobre como trabalham os controladores de vôo para monitorar o tráfego. Estariam trabalhando com uma grande sobrecarga, cumprindo uma rotina fora da capacidade de resistência física.
Eles trabalham pelo menos 18 dias por mês, cumprindo plantões de oito a nove horas, quando, tecnicamente, deveriam trabalhar duas horas e descansar duas horas.
Como se não bastasse, ainda trabalhariam sob pressão, prevalecendo todo o rigor imposto pela hierarquia militar.
Em Brasília, na terça-feira, circulava entre autoridades da Aeronáutica, extra-oficialmente, a versão que o jatinho estava sem contato com o centro de controle aéreo de Brasília quando se chocou com o Boeing, confirmando-se a versão anterior apresentada no depoimento de Joseph Lepour e Jan Paladino à polícia civil de Mato Grosso.
Mas o que intriga as autoridades envolvidas nas investigações foi o fato de os dois pilotos afirmarem que ocorreu apenas um pequeno impacto com o Boeing da Gol provocando um barulho correspondente ao de uma colisão de carros. Desconfiado, o Ministério Público de Mato Grosso pediu a Justiça que fossem retidos os passaportes deles, para que continuem no país e possam ser chamados para prestar novas informações.
A versão dos dois é que 10 minutos depois da decolagem (14h17, horário de Brasília), em São Bernardo do Campo (SP), acionaram o piloto automático, mas, para atingir a altitude de cruzeiro prevista no plano de vôo 937 mil pés, consumiram mais 45 minutos.
Uma hora e meia depois da decolagem, o piloto foi ao toalete, e, justamente nesse momento, antes do choque, o Legacy perdeu contato com o controle aéreo. Todas as tentativas para retomá-lo foram frustradas. O choque teria desativado o piloto automático, empurrando a aeronave para o lado esquerdo, com o piloto assumindo o controle manual. Depois de assegurar a estabilidade, orientando o co-piloto a assumir o comando, uma vez que tinha mais experiência e mais horas de vôo em Legacy.
Mas as suspeitas de que os pilotos americanos não têm lugar no céu, devem ter culpa no acidente, tomaram uma dimensão tão consistente, na terça-feira, ao ponto de a Polícia Federal entrar também nas investigações. E já começou apreendendo, no Rio de Janeiro, os passaportes de Lepore e Paladino, além de requisitar cópia do inquérito aberto pela Polícia Civil de Mato Grosso e só não assumirá o comando das investigações se o juiz de Peixoto de Azevedo (MT) não aceitar transferir o caso para a esfera federal.
Os policiais civis já cogitam indiciar os dois americanos caso fique comprovado que eles voavam mil metros acima da altitude prevista para o jato executivo no momento em que o Legacy se chocou com o Boeing da Gol. Ele poderão, inclusive, ser denunciados por homicídio doloso (intencional).
Algumas das mais importantes autoridades aeronáuticas suspeitam que os pilotos americanos teriam desligado o transponder, equipamento que mostra a sua localização no radar e faz parte do sistema anticolisão do avião, logo depois de passar pelo Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego (Cindacta) de Brasília. Sem o aparelho ligado, o Cindacta só identificou um ponto no radar, indicando a presença de uma aeronave, mas sem a informação mais importante: a altitude.
É possível que a asa e o leme do Legacy tenham atingido os sistema hidráulicos e o leme do Boeing. Tanto é assim que as imagens do sistema de controle de vôos da Aeronáutica já analisadas pela comissão que investiga o acidente mostram que, após o Boeing iniciar uma queda livre, pode ter começado a perder pedaços ainda no ar. E nessas condições, de acordo com os técnicos militares, deve ter ocorrido uma despressurização que, combinada com a temperatura de 40 graus abaixo de zero, provocaria a morte quase imediata dos passageiros, sem sofrimento, antes mesmo de o avião chegar ao solo.
Estranhamente, os pilotos americanos se defendem aos berros, afirmando que em nenhum momento apertaram qualquer botão ou tomaram qualquer iniciativa que pudesse desligar o transponder do avião. Eles ainda reclamam das condições de vôo, especialmente na região da serra do Cachimbo, garantindo que fizeram várias tentativas de contato com os radares do controle aéreo. Mas não especificam se foi antes ou depois do acidente.
A verdade é que muitas questões precisam ser esclarecidas, tais como: 1) por que o transponder do Legacy estava desligado?; 2) por que foi religado na hora do choque com outro avião?; 3) por que os pilotos não seguiram o plano de vôo, que previa uma mudança de altitude de 37 mil pés para 36 mil pés a partir de Brasília?; 4) por que falhou a comunicação entre o Legacy e o Cindacta-1 (o centro de controle de Brasília)?.
Na quarta-feira, o colunista do "The New York Times" Joe Sharkey, um dos sete passageiros do jato executivo da Embraer que sobreviveram à colisão com o Boeing 737/800 da Gol, em entrevista no programa "Today Show", exibido, ao vivo, pela NBC, questionou a condução do inquérito pelas autoridades brasileiras: "Precisamos ter cuidado com as evidências coletadas sobre o acidente". Questionado pelo apresentador Matt Lauer sobre a situação dos pilotos Joe Lepore e Jan Paul Palladino, foi desrespeitoso com o Brasil: "Os pilotos correm risco naquele país".
Quase ao mesmo tempo, também na quarta-feira, o coronel Ramon Bueno, chefe do SRPV (Serviço Regional de Proteção ao Vôo) de São Paulo, afirmava que o Legacy estava na contramão no momento em que colidiu com a aeronave da Gol.
Explicou o coronel que, de acordo com regras técnicas de aviação, o jato jamais poderia ter um plano de vôo aprovado para estar naquela altitude - 37 mil pés - naquele trajeto e isso, obrigatoriamente, tem de ser de conhecimento de qualquer piloto.
Em depoimento publicado pelo jornal "The New York Times", na terça-feira, o jornalista Joe Sharkey, que estava a bordo do Legacy, deu a sua versão de como ocorrera a colisão: "Sem aviso, eu senti um terrível solavanco e ouvi um estrondo que nunca mais vou esquecer: "Nós fomos atingidos", disse Henry Yandler, um passageiro que estava em pé no corredor perto da cabine do jato da Embraer.
- “Atingidos? Como assim? - perguntei. Eu abri a cortina. O céu estava claro e o sol baixo. A floresta continuava a se perder de vista. Mas lá, na ponta da asa, onde o winget de cinco pés de altura deveria estar, havia uma extremidade avariada".
Daí por diante, veio o pânico, conforme Joe Sharkey: "E então começaram os 30 minutos mais dolorosos da minha vida. Nos dias que se seguiram, ouvi muitas vezes que ninguém sobrevive a uma colisão no ar. Eu tinha sorte de estar vivo - e somente depois saberia que as 155 pessoas a bordo do Boeing 737, que parece ter colidido com o nosso, não tiveram".
O jornalista, pelas evidências técnicas já avaliada, está desinformado. Não foi o Boeing da Gol que colidiu, mas, sim, o Legacy, como o final das investigações deve concluir.
No domingo, depois de muita angústia e ansiedade dos familiares das vítimas, a Agência Nacional de Avião Civil admitia que não existiam mais chances de encontrar sobreviventes. Uma equipe de resgate dos destroços do vôo 1907, começava naquele mesmo dia a retirar fragmentos de corpos espalhados num raio de até 500 metros, em uma área de difícil acesso em meio à selva. O trabalho, envolvendo 90 militares, deverá durar mais de uma semana.
Até a segunda-feira, apenas fragmentos foram encontrados. O avião caiu verticalmente e está encoberto pela copa das árvores. Chocado com todo o quadro no local em que o avião caiu, o brigadeiro Jorge Kersul Filho desabafava, emocionado: “A situação é muito pior do que qualquer um de nós possa imaginar”.
O cenário em um raio de 500 metros era de corpos mutilados e peças do avião espalhados.
Na terça-feira, os corpos do piloto e do co-piloto do Boeing foram localizados por pára-quedistas da Aeronáutica. Dércio Chávez Júnior, o piloto, e Thiago Jordão, co-piloto, foram encontrados nos destroços da cabine da aeronave, em seus respectivos assentos, presos aos cintos de segurança. Bem cedinho, na manhã da terça-feira, foram retirados da mata, içados a um helicóptero e levados a uma fazenda na região que serve como base de apoio dos militares.
Mas a cada dia que passa o trabalho de localização das vítimas torna-se mais difícil. As fortes chuvas e a decomposição natural dos corpos são fatores que mais preocupam as equipes de resgate.
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