E o bicho pegou...
Data de Publicação: 7 de outubro de 2006
Três dias antes de os 125 milhões de brasileiros habilitados a votar, no domingo, digitassem seus votos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, optou por não comparecer ao debate, promovido pela Rede Glo-bo de Televisão, com os seus adversários Geraldo Alckmin (PSDB), Cristovam Buarque (PDT) e Heloísa Helena (PSOL). E o fez apenas uma hora antes do prazo estabeleci-do pelos organizadores, preferindo comparecer a um comício em São Bernardo do Campo, seu berço político.
Se estava feito uma presa, ameaçada pelo carcará, que, se corresse o bicho pegava, e se ficasse seria comido, Lula avaliou mal as vantagens e desvantagens. Tanto que, no sábado, véspera das eleições, proclamava que sua decisão em não comparecer ao debate fora a mais acertada, porque não se expôs a um bombardeio de petardos verbais, princi-palmente disparados por seus ex-companheiros do PT, Heloísa Helena e Cristovam Buarque.
Vivendo o desconforto de ter que responder a pergun-tas incômodas sobre as trapalhadas de petistas, que prota-gonizaram escândalos como o do mensalão, dólares na cueca, além da compra de um dossiê que comprometeria seus aliados, Lula acreditava que, fugindo de um confronto verbal, sairia ileso e com a reeleição garantida.
Foi, então, que cometeu o seu maior erro de avaliação.
Apurados todos os votos, no fim da noite do domingo, os resultados, seguramente, lhe tiraram o sono: a eleição para definir quem sentará na poltrona principal no terceiro andar do Palácio do Planalto, a partir do dia primeiro de janeiro, será decidida em segundo turno, no dia 29, entre ele e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Quando 99,89% das urnas estavam apuradas, o presi-dente tinha conquistado 48,6% dos votos válidos, mas a soma dos adversários atingia o percentual de 51,4% (Alckmin, 41,63%; Heloísa Helena, 6,85%; e Cristovam Buarque, 2,65%).
Antes de dormir, em uma reunião com os seus princi-pais conselheiros, na madrugada da segunda-feira, logo ele, que nunca sabe de nada, fez uma constatação: cometera um erro ao não comparecer ao debate da semana passada.
Lula, além de amargar um segundo turno que parecia distante, teve que se defrontar com números desconfortá-veis para o Partido dos Trabalhadores: o principal adver-sário, Alckmin festejava a vitória em 11 Estados e já antevia a possibilidade de protagonizar um confronto de idéias com ele.
Entre os Estados que os tucanos venceram, está São Paulo, com José Serra, que atingiu 57,94% dos votos válidos quando a apuração estava em 99,86% das urnas con-tabilizadas. Mais ainda, o também tucano Aécio Neves, foi reeleito governador de Minas Gerais com 77,03% dos vo-tos.
No dia 29 de outubro, Lula não vai temer uma ave pre-dadora, como o carcará, mas, sim, um tucano, que demonstra muito apetite por votos.
Quase insaciável, a julgar por São Paulo e Minas Gerais.
Em uma segunda-feira de grande ressaca eleitoral, o presidente Lula, que parecia ter a certeza absoluta que ven-ceria, já no primeiro turno, na primeira entrevista depois de proclamado o resultado de que o remetia a um segundo turno com Geraldo Alckmin, fazia uma catarse política, admitindo que o escândalo do dossiê fora um “tiro no pé”, desconstruindo a possibilidade de vencer no domingo passado.
Foi, inclusive, mais adiante, revelando que fica “pedin-do a Deus” que não lhe aconteça nada “até que esse mis-tério”, seja, finalmente, desvendado. Qual o mistério que atormenta-o? Ele mesmo esclarecia, logo depois: “Quero saber quem arquitetou essa obra de engenharia para atirar no próprio pé. Isso, porque quando você negocia com bandidos, está sendo tão bandido quanto eles”.
Mesmo emocionalmente debilitado, parecendo falar com o piloto automático acionado, muitas vezes demons-trando distância dos jornalistas, ensaiou momentos de humor, como, por exemplo, quando deu uma explicação para o fato de não ter saído vitorioso já no primeiro turno. “Faltou voto no primeiro turno”, comentou, para acrescen-tar em seguida: “Mas não faltará no segundo”.
Quase ao mesmo tempo, Alckmin fazia outra leitura do resultado no primeiro turno: “Ele teve sua chance e deixou passar... Do ponto de vista ético, o Lula podia ter demons-trado um exemplo, e infelizmente não foi isso o que vi-mos”. Não é por acaso que o tucano, desde a madrugada da segunda-feira, passou a esbanjar otimismo. Para começar, ele aposta que a tendência, daqui por diante, será de rejeição a Lula, na mesma proporção em que o petista tiver dificuldade para esclarecer os escândalos protagonizados por seus companheiros. Isso, acredita, pode aumentar, progressivamente, a escolha por seu nome, até o dia 29. Ci-tou o exemplo mais recente: “A sociedade está esperando as respostas. De quem é o dinheiro, de quem é o dólar, quem é o dono das contas e como entrou no país?”.
Mas a caixa-preta do primeiro turno começava a ser analisada na terça-feira, a partir de uma pesquisa realizada pelo Datafolha para avaliar qual a destinação dos votos dos 9.365.999 eleitores que votaram nos candidatos que não irão disputar o segundo turno. O resultado não deve ter animado o presidente Lula: a maioria declarou que votaria no candidato do PSDB à Presidência da República.
Nada menos que 53% dos eleitores de Heloísa Helena (PSOL), que obteve 6.575.393 votos, revelaram que preten-diam votar em Geraldo Alckmin, enquanto 29% manifes-tavam a intenção dos votos em Luiz Inácio Lula da Silva. Heloísa Helena, no entanto, já anunciou que não vai apoiar nem Lula nem Alckmin.
Já os eleitores de Cristovam Buarque (PDT), que teve contabilizados 2.538.844 votos (2,64% dos válidos), Alck-min receberia nada menos que 1,3 milhão, equivalente a 52% do total. Lula receberia 660 mil, ou 26% do eleitorado pedetista.
Os números estão contra Lula, que vive um inferno zodiacal, escorpiano que é.
- Próximo texto:
- Política Freud explica?
- Texto Anterior:
- Opinião Não houve renovação
- Índice da edição - Ed. 511