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Ano 10 - 28/10 a 03 de Novembro 2006
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ENTREVISTA - Ernesto Silva

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Data de Publicação: 7 de outubro de 2006
O grito de alerta

O médico Ernesto Silva pode ser considerado, legitimamente, não apenas um memorialista de Brasília, mas, também, o maior defensor da sua preservação.

Por aqui ele já se encontrava, quando antes só existia cerrado. Veio como secretário da Comissão de Localização da Nova Capital, incumbida de escolher no Centro-Oeste, a melhor área para a construção da capital da República.

Há exatamente 50 anos, Juscelino Kubitscheck veio, pela primeira vez, conhecer o local aonde Brasília seria construída. Tornaram-se amigos ao ponto de ter aposentos vizinhos aos do presidente, no Catetinho. Daqui, não saiu mais, incumbido depois da inauguração em desenvolver um trabalho para consolidar a cidade mais moderna do mundo, tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade.

Com 90 anos de idade, sempre muito ativo, ele exorta os novos governantes a se esforçarem para preservar Brasília, não permitindo que o seu projeto original seja mutilado e manifesta a sua maior preocupação: a explosão demográfica, que aumenta muito, a cada 10 anos, e que poderá inviabilizar a cidade como capital da República.

(Aos 90 anos, ele entra ágil na sala de seu apartamento, na 105 Sul, esbanjando vigor, contando que acabara de chegar de um compromisso que o emocionara: tinha comemorado, na casa que abrigou Juscelino Kubitscheck quando ele visitou Brasília, fazia exatamente 50 anos, para conhecer a área onde seria erguida a capital da República, na segunda-feira, ao lado da Zenaide Barbosa, que serviu a JK um cafézinho, na Fazenda do Gama. Deixa transparecer a emoção)

Marcone Formiga - Brasília tem um novo governador e está quase completando 50 anos. Hoje, o que está certo e o que está errado?

Ernesto Silva - O certo de Brasília é ter nascido, resolvendo um problema do Brasil, que era o desenvolvimento do Centro-Oeste. Embora, na minha opinião, venha sendo feito com lentidão. A migração é feita para a cidade e não está sendo distribuída convenientemente para o resto da região. Não compreenderam que Brasília seria o pólo de desenvolvimento. Daqui seriam formados grandes círculos de desenvolvimento no Centro-Oeste. Mas a questão de doação de lotes prejudicou muito Brasília. Sempre falei para o Joaquim Roriz: “Se o senhor quer proteger as pessoas, dê concessão de uso, porque se o cidadão for embora, o terreno volta a ser do governo”. Foram doados 600 mil lotes! Chegam pessoas aqui sem profissão, vivendo ao Deus-dará, pedindo esmola, ganhando cesta básica... É como aquela coisa de dar R$ 60 para 11 milhões de pessoas, como faz o Lula.... Isso não é ajudar as pessoas, é comprá-las! Acaba com a cidadania das pessoas, que não têm emprego, sobrevivem com aquela migalha, mas têm o compromisso de votar nos políticos que fazem isso.

Marcone Formiga - Já que o senhor está voltando da Casa Velha, vamos voltar ao tempo: o senhor já estava por aqui quando tudo era apenas cerrado. Como é que foi?

Ernesto Silva - Bem, eu participei da primeira expedição oficial a pôr os pés na área onde hoje está o Plano Piloto. Eu ocupava na época o cargo de secretário da Comissão de Localização da Nova Capital, que fora designada pelo então presidente Café Filho para escolher o local onde a cidade seria construída. Na época, eu era professor de português do Colégio Dom Pedro II, no Rio, e percebi o momento histórico que se abria para o meu futuro. Vale ressalvar uma coisa: antes mesmo de Juscelino Kubitscheck tomar posse na Presidência da República, com o compromisso de construir a nova capital, a comissão, presidida pelo Marechal José Pessoa, conseguia promover a desapropriação de quatro mil alqueires da Fazenda Bananal, adquiridos de Jorge Peles por 3,2 milhões de cruzeiros. Um detalhe histórico: Jorge Peles viria depois a ser o sogro do ex-governador Joaquim Roriz...

Rachel Furtado - Qual o critério para a escolha do local ideal?

Ernesto Silva - Percorríamos toda a região, com um comboio de jipes que saiu de Planaltina, no dia cinco de fevereiro de 1955. Parecia mais uma aventura. Era quase meio-dia quando, finalmente, chegamos no ponto mais alto da Fazenda Bananal, onde podemos vislumbrar a área onde hoje está erguido o Plano Piloto...

Rachel Furtado - E como o senhor morava por aqui?

Ernesto Silva - Nos primeiros anos eu morei no Catetinho, que foi inaugurado no dia 10 de novembro de 1956, e eu tinha meu quarto ao lado do que o presidente Juscelino ocupava. O Catetinho era simples, uma construção de madeira, sobre pilotis. Tinha espaço suficiente para uma sala, outra conjugada para servir as refeições, cozinha, quatro quartos e banheiros, mais luz elétrica, água encanada, geladeira, rádios e poucos móveis, todos eles básicos ou funcionais.

Marcone Formiga - Voltando um pouco ao passado: depois de escolhida a área para a construção da capital, qual foi a sua função?

Ernesto Silva - Depois, fiquei encarregado de preparar o edital do concurso que escolheria o projeto a ser executado da cidade, além de ficar com a responsabilidade de consolidar a nova capital, depois de inaugurada...

Rachel Furtado - Bom, então estamos chegando ao ponto: por que o senhor acha que Brasília está correndo o risco de ser inviabilizada?

Ernesto Silva - A cidade está ficando descaracterizada. A W3 tem bordel, tem salão de cabeleireiro, oficina... Tem tudo ali! Tudo pichado e quebrado. É uma Calcutá! As autoridades passam até 12 anos sem irem por lá. Será que não dói o coração delas? Não têm nada ao ver com a W3 assim? É preciso ver o projeto de Lúcio Costa e compreender o que ele queria fazer. Uma quadra, por exemplo, para dar boa qualidade de vida, deve ter apenas 15% de área construída, 55% de área verde e o resto para passeio e pistas para automóveis. Esses 15% de construção abrangem jardins de infância, escolas-classe, bancas de jornal e ponto de ônibus. O comércio local é para compras do dia-a-dia - uma farmácia, uma quitanda, um salão de cabeleireiro, uma padaria. Os comércios são pequenos porque são a varejo. Grandes mercados ficam destinados a outros lugares, como no centro da cidade. No espaço de quatro quadras, reservou-se tudo para o dia-a-dia - igreja, escolas, clubes Vizinhança... Isso comportaria uma população de 12 a 15 mil habitantes. Seria um bairrozinho. Quando entregamos Brasília, em 1960, deixamos pronta uma Unidade Vizinhança, completa, que é a da 108/109 Sul. Nunca mais tiveram o desejo de erguer outras unidades.

Marcone Formiga - Fala-se muito que o tombamento engessou Brasília. Existem cidades tombadas pelo mundo, como Veneza, onde não existe esse engesso todo. Qual é a diferença?

Ernesto Silva - Toda cidade tem seu plano diretor, por menor que seja. Esse plano diretor, em Brasília, é mais severo, porque Brasília é única no mundo. É uma jóia! Foi considerada, pela Unesco, uma cidade singular no mundo, não há nenhuma outra sequer parecida, com Asas Norte e Sul divididas por quadras. Por exemplo, o pilotis não pode ser fechado. O pilotis é de livre circulação, é para as crianças brincarem, virem crianças de outra quadras... É uma democratização. A pessoa pertence à quadra, mas a quadra não lhe pertence. Então, as pessoas têm que se suscitar às normas da cidade, seja qual for a cidade. Se você vai a uma reunião de comunidade, constatará que cada um quer uma coisa. Se Lúcio Costa fosse fazer o plano ouvindo todos, estaria fazendo até hoje...

Marcone Formiga - O senhor conheceu tanto Lúcio Costa quanto Oscar Niemeyer muito bem. O Lúcio Costa, certa vez, em uma entrevista afirmou que ele havia entrado com o bolo e o Oscar Niemeyer com o chantilly. Existia entre esse dois gênios algum tipo de rivalidade?

Ernesto Silva - Eu nunca notei nada relacionado a isso. O Lúcio Costa sempre teve toda liberdade. Eu vi apenas uma briga, entre o Israel Pinheiro e o Oscar Niemeyer, durante pintura do teto do Brasília Palace Hotel. Não foi bem uma briga, foi uma discussão.

Marcone Formiga - Por quê?

Ernesto Silva - Por causa da cor do teto! Um queria branco, outro queria rosa e não sei mais o que... Mas, depois, o Juscelino se meteu e acalmou os ânimos. Nunca vi nada além disso. O Lúcio foi sempre muito discreto e reservado.

Marcone Formiga - Afinal, o traço era a cruz? Porque ele era agnóstico.

Ernesto Silva - Falam muitas bobagens sem sentido por aí, ainda hoje. O negócio é o seguinte: quem assinou o edital, o Marechal José Pessoa pediu demissão da comissão, que, àquela altura, já se chamava Comissão de Planejamento de Construção e da Mudança da Capital Federal. Eu era secretário e o Juscelino, então, me chamou e pediu para que eu continuasse o serviço que tinha que fazer, porque a lei que criava a Novacap já estava em tramitação no Congresso, e, principalmente, apressasse o lançamento do concurso do Plano Piloto, para que, quando a lei fosse assinada, o concurso já estivesse aberto. O edital dizia que os candidatos deviam apresentar um traçado básico para a cidade e um relatório justificativo. Alguns fizeram mapas elaborados, mas o Lúcio Costa pegou uma folha de papel, riscou seus traços, e ganhou o concurso. Ele dizia: “Se minha idéia é válida, eu desenvolvo. Se não é, eu não perdi meu tempo nem tomei o de ninguém”. A partir de então, foi se pondo tudo em seu lugar - os ministério, escolas dentro das quadras... Fiz um esforço na implantação das escolas-parque, porque diziam que era uma escola de brinquedo. Falavam: “Para que serve isso? Para fazer boneco, tocar instrumentos, aprender teatro?” Eu respondia: “É exatamente para isso!”...

Marcone Formiga - Eram idéias com raízes socialistas, não?

Ernesto Silva - Considero mais provincianista...

Marcone Formiga - Viam nestes projetos uma aplicação ideológica do Lúcio Costa e Niemeyer, que sempre foi mais socialista...

Ernesto Silva - Em seu plano, Lúcio Costa colocou um jardim de infância e uma escola primária dentro das quadras. Na unidade Vizinhança, havia uma escola secundária. Anísio Teixeira havia criado as escolas-parque na Bahia e depois que saiu da Secretaria de Educação, ninguém fez mais nada. Ele tinha o sonho de implantar em uma cidade inteira o seu plano. Anísio Teixeira convenceu Lúcio Costa a deslocar as escolas secundárias para as 700, onde ficam o CASEB, Elefante Branco, deixando espaço para as escolas-parque. Entregamos Brasília na mais perfeita normalidade.

Rachel Furtado - Em que momento o senhor acha que parou esse progresso que JK iniciou na região?

Ernesto Silva - Eu acho que o que mais prejudicou Brasília foi a autonomia. Eu digo isso porque sou carioca, nunca votei para prefeito e nunca me considerei humilhado, porque o DF é do governo Federal. Então, o presidente da República nomeava o prefeito, que não tinha a obrigação de dar duas secretarias para um partido, duas para outro... Os prefeitos só tinham compromisso com a cidade. Nosso amigo Aimé Laimaison, que não era prefeito e, sim, governador, era um pouco limitado, mas montou um secretariado ótimo. O Brasil é dividido em Estados, que são divididos por municípios. Os municípios, por sua vez, são divididos em distritos. Mas, na Constituição brasileira, veda a divisão do Distrito Federal em municípios. Como isso é possível? Outra coisa: qualquer capital do mundo tem prefeito.

Marcone Formiga - O senhor acha que Brasília corre o risco de ficar inviabilizada como capital da República?

Ernesto Silva - A questão de Brasília é conscientizar a população a assumir a defesa da cidade, quanto a sua preservação. Por que a saúde pública se encontra em um caos? Porque acabaram com a Fundação Hospitalar. Para se comprar um tubo de vaselina, tem que pedir licença à Secretaria da Administração, para ver se existe verba na Secretaria de Fazenda. A Fundação Hospitalar tinha autonomia para fazer tudo isso. Para ser criado um serviço médico especializado, é necessário passar pela Câmara Legislativa!

Marcone Formiga - Com evitar que até 2050 Brasília chegue a ter dez milhões de habitantes?

Ernesto Silva - Daqui a 30 anos, terá cerca de seis milhões de habitantes. Em 10 anos, cresceu um milhão.

Rachel Furtado - Isso pode inviabilizar a cidade?

Ernesto Silva - Lógico! Quanto mais cresce, mais aumenta a tendência de crescer mais futuramente. Dizem que todos têm o direito de ir e vir pela Nação. Mas, em Brasília, só vêm. Uma vez eu disse ao Joaquim Roriz que ficaria muito mais barato comprar um terreno para esse pessoal que vem para cá na cidade de origem deles do que deixar eles terem problema por aqui. A mesma coisa com a Escola-Parque. Ele me disse que não tinha dinheiro para a educação. Quem diz que não tem dinheiro para a educação, não sabe o preço da ignorância. A Escola-Parque é uma coisa fantástica. Coloquei uma placa na primeira inauguração proclamando: “Na Escola-Classe se aprende nos livros e a Escola-Parque prepara para a vida”. Desperta vocações. Você pode ser uma cantora, uma atriz de teatro, uma nadadora, um desenhista, um músico. Mas o pessoal não enxerga adiante. Como dizia Nelson Rodrigues, “os imbecis são imbatíveis”.

Rachel Furtado - O senhor referiu-se às pessoas que vieram para Brasília incentivadas pela distribuição de lotes. Não há com fazer essas pessoas voltarem mesmo?

Ernesto Silva - Eu acredito sempre. Uma vez, no Rotary Club, houve um movimento que consistia em criar um mutirão para a volta ao campo. Mas não pegou. Deve haver alguma forma de conseguir isso, mas aí entra aquela questão da politicagem, porque esse pessoal não quer perder voto. O problema é mesmo muito grave, gravíssimo, porque Brasília não foi planejada para ter uma população como a que deveremos atingir muito em breve. Além de ser capital da República, uma cidade funcional, Brasília teria o papel de ser um pólo de desenvolvimento do Centro-Oeste. O Lúcio Costa, por exemplo, imaginou um caminho em volta do Lago, mas o que aconteceu? Foi ocupado por mansões. Mas a minha indignação maior, repito o que falei há pouco, é com o que aconteceu com a W 3 Sul. Pedindo licença a população de Calcutá, na Índia, mas me lembra muito bem aquela cidade, com tudo feio, desorganizado, abandonado...

Marcone Formiga - Por que desde cedo não se pensou em preservar Brasília?

Ernesto Silva - Quer saber de uma coisa? Já em 1962, para fazer justiça a esse grande arquiteto, o Oscar Niemeyer já se debatia para manter o projeto original, quando percebeu uma tendência na época de que iriam mutilar toda a obra. O Lúcio Costa, que fez o projeto urbanístico, costumava falar o seguinte: "Nem tudo o que o povo quer é o que o povo precisa. E nem tudo o que o povo quer ouvir é o que precisa ouvir".

Marcone Formiga - Resumindo: por que foi possível construir Brasília?

Ernesto Silva - Em primeiro lugar, por causa da determinação de Juscelino Kubitscheck, que impôs um trabalho de 24 horas ininterruptos. Com todos empenhados em tornar possível aquele sonho, que muitos preferiam considerar impossível, inclusive torcendo que não fosse levado adiante. Desde o mais humilde dos candangos até o presidente da República...

Marcone Formiga - Se o governador eleito José Roberto Arruda pedisse-lhe um conselho para Brasília para o senhor, o que diria?

Ernesto Silva - O fundamental: que ainda é possível salvar Brasília! Mas existem três coisas que eu entendo muito - educação, saúde e preservação. Quanto à preservação é preciso cumprir os projetos de Lúcio Costa, ver se conseguimos reverter alguns quadros, como o da W3 e ter coragem de dizer não. O político que exerce sua profissão com dignidade e respeito, sendo duro, no fim é compreendido. Temos que ter uma pessoa que diga não quando tem que dizer não, e sim quando tem que dizer sim.

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