A temporada de caça
Data de Publicação: 7 de outubro de 2006
Por: Carlos Chagas
E-mail: cchagas@brasiliaemdia.com.brPara o presidente Lula e para Geraldo Alckmin, começou a temporada de caça, sem discriminações. Caça aos derrotados, caça aos vencedores e caça aos que ficaram para o segundo turno. Nas últimas horas os dois candidatos telefonaram para meio mundo. Estão reunindo capital para o último investimento. Em consequência, empenham o que tem e o que não tem: vagas no futuro ministério, abrigo em legendas sob suas lideranças, apoio em eleições futuras, influência nos respectivos governos, amizade perpétua e até entrada franca nos palácios presidenciais.
Sob o aspecto da obsessão da vitória, a política não mudou nada. Por exemplo, no caso do Lula: de Patinho Feio, abandonado à própria sorte na Bahia, Jacques Wagner foi transformado num exuberante cisne, encarregado de contagiar os estados do Sul e Sudeste com os votos conquistados nos estados do Norte e Nordeste. Candidato derrotado pelos institutos de pesquisa, Wagner virou o governador sem o qual o PT não dará mais um passo, na hora de reciclar-se e escolher seu novo presidente.
Quanto a Geraldo Alckmin, também citando uma só de suas caçadas: prometeu-a Michel Temer a presidência da Câmara, na hipótese se o PMDB pender, em maioria, para sua candidatura. Em especial se for no Nordeste.
Aqui para nós, não mudou nada, desde que Pero Vaz de Caminha, em carta ao rei D. Manoel, pediu emprego para o genro, após haver anunciado o Descobrimento do Brasil.
OPORTUNIDADE QUASE PERDIDAOntem não aconteceu, talvez não aconteça hoje, quer dizer, não acontecerá mais. Fala-se da oportunidade de ampla reunião entre representantes do Tribunal Superior Eleitoral, do comando de campanha dos dois candidatos presidenciais e das redes nacionais de televisão. Para que? Para organizarem a realização, em cadeia nacional, de no máximo dois debates entre o presidente Lula e Geraldo Alckmin, daqui até a eleição em segundo turno. Tudo sob a égide da Justiça Eleitoral, como aconteceu em 1989 e em 2002. Seria evitada a vulgarização dos confrontos entre os candidatos, por enquanto comprometidos a comparecer a quantos estúdios venham a convocá-los, por medo de serem tidos como fujões.
Com as eleições está em jogo a sorte do país, valor muito maior do que a vaidade das redes, cada qual pretendendo encenar o seu espetáculo particular, com exclusividade para suas estrelas jornalísticas, e, last but not least, para comercializar e faturar os debates.
Pelo jeito, Lula e Alckmin condenam-se a comparecer a pelo menos cinco debates, desgastando-se com as mesmas respostas dadas à mesmas perguntas que lhes serão formuladas. Pior ainda, estarão sujeitos a ir ao ar em dias de audiência fraca, pela necessidade de os telespectadores dormirem cedo para trabalhar no dia seguinte. E, desgaste ainda maior, subordinados ao horário das novelas, dos programas de auditório e das reuniões evangélicas, cujos tempos comprados e já pagos teriam precedência. Depois do terceiro ou quarto debate o cidadão comum mudará de canal, comentando com a mulher que não aguenta mais a apresentação dessa dupla caipira.
Eleição presidencial é coisa séria, ainda mais em segundo turno. Claro que não se sobrepõe à liberdade de informação e de expressão, mas botar ordem na bagunça só faria aprimorar o voto popular, objetivo maior das instituições nacionais.
REELEIÇÃO ATÉ A ETERNIDADEAté domingo passado dava votos descer tacape e borduna no instituto da reeleição. Todo mundo era contra a possibilidade de um governante disputar o segundo mandato no exercício do primeiro. E não apenas por tratar-se de uma imoralidade o uso da máquina administrativa para favorecimento próprio. Também porque os candidatos à reeleição sabiam não dispor de outra chance constitucional para conquistar o terceiro mandato.
Está mudando essa tendência. Primeiro pelos candidatos à primeira eleição de governador. Se os outros puderam, porque eles não poderão? Eleição só de governador? É bom prestar atenção em Geraldo Alckmin, que nunca mais abriu a boca para criticar a reeleição. Além dele, existem os prefeitos, de olho em 2008.
No Congresso também arrefeceu o impulso de extirpar da Constituição esse monstrengo. Os deputados e senadores derrotados perderam o interesse, exceção daqueles que vão orbitar em torno de governadores eleitos pela primeira vez ou... Ou dos que já oferecem seus préstimos a Geraldo Alckmin, se ele sair vitorioso no segundo turno.
Os parlamentares reeleitos ou chegando pela primeira vez a Brasília vão pensar duas vezes, antes de decidir se terão a ganhar ou a perder com o fim da reeleição. Até os do PT e afins hesitam, porque, afinal, se o Lula conseguir o segundo mandato, quem garante que não começará quinze minutos depois a campanha pelo terceiro?
RETRATAÇÃOMetáforas fazem parte da crônica política. Já escrevi que as oposições contrataram Sherlock Holmes para investigar a participação de José Dirceu no mensalão. Contei a passagem do genial detetive por Brasília. Nem o ex-chefe da Casa Civil sentiu-se agravado, muito menos os descendentes de Connan Doyle preocuparam-se com o uso indevido do personagem.
Com freqüência, apelando para a ficção, costumo trazer à realidade nacional mortos ilustres como Getúlio Vargas, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, que comentam e até participam de lances conturbados da política. Para não falar na intromissão de Napoleão, Maquiavel, Alexandre “o Grande”, Pedro Álvares Cabral e personagens da História instalados pela minha parca imaginação nas avenidas e palácios da capital federal. Nenhum protesto, até agora.
Em 29 de agosto, enveredei pela mesma trilha, diante da desclassificação de Plutão de planeta para asteróide. Por conta da proliferação de ONGs fajutas mamando nas tetas do governo, uma delas, que a imprensa divulgara ser dirigida por um ex-líder sindicalista, imaginei outra, a "Sociedade dos Amigos de Plutão".
Ao descrever suas atividades, obviamente fictícias, não resisti à tentação de apresentá-la como da mesma forma presidida por líder sindical, suposto amigo do presidente, claro que inexistente, por isso jamais fulanizado. A ONG teria sede na Esplanada dos Ministérios e seus diretores empreenderiam farta e luxuosa viagem ao redor do mundo, pregando a imprescindível reabilitação de Plutão.
ESCLARECENDO DÚVIDASSimples metáfora, mas, reconheço, sem a caracterização explícita. Como no período eleitoral que agora se encerra, andam exasperadas as emoções, houve quem supusesse naquela crônica uma agressão ao PT, às lideranças sindicais, ao presidente e à Esplanada dos Ministérios. Penitencio-me, para que não haja dúvidas. A ONG "Sociedade dos Amigos de Plutão" não existe. Pelo menos, ainda não foi criada.
Para evitar a repetição de um problema que já relato, lembro a Lei de Imprensa, dispondo de uma figura denominada retratação. Quando, no mesmo espaço, na mesma página, um jornalista se retrata, reconhecendo o erro, cessa ou nem se inicia a respectiva ação penal. Por que esse cuidado? Porque, não faz um mês, o comitê de campanha de Geraldo Alckmin denunciou-me à Justiça Eleitoral como tendo ofendido o candidato, ao chamar de burra e ofensiva à inteligência nacional a estratégia de ficar agredindo Lula em vez de anunciar seus programas.
No TSE, em nome da liberdade de imprensa, o ministro-relator recomendou o arquivamento da ação, acompanhado em seguida pelo plenário. Seria no mínimo inusitado, na mesma eleição, ser processado pelos dois lados, mas faz tempo que de quatro em quatro anos a história se repete. Estará a virtude no meio?...
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